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  • Foto do escritorGenival Dantas

A vida observada de dois polos e dois sentidos (03/03/2021)




O Fato Sem Politicagem 03/03/2021


Vendo escapar por entre os dedos toda e qualquer possibilidade de um acerto generalizado com participação dos entes da Federação, as desinformações se transformando em desacertos, enquanto os Estados e Municípios numa convergência salutar em busca de soluções e não paliativos, a população mergulhada nas incertezas do que possa vir.


Como consequências piores, os hospitais com lotações beirando aos 100% das suas capacidades, tanto nas enfermarias quanto nas UTIs, os médicos e paramédicos, assim como outros profissionais nessa cruzada inglória, seguem nos seus limites físicos e mentais, na luta incessante na luta pela vida de muitos.


Diferente desse diapasão e em outro mundo de atuação segue como quem alheio ao que acontece no planeta terra, portanto também no Brasil, o governo federal indiferente aos números, em ritmo crescente e desconfortável para todos nós, continua sua cantilena desajusta e inconsequente, mostrando sua incapacidade de reagir e até mesmo boa vontade de se aliar aos bem aventurados e ciosos brasileiros em busca de soluções para o combate da pandemia que nos assola.


Não vou ficar sendo repetitivo nesse texto para pedir clemência pelos mortalmente afetados pelo Coronavírus, outros até recuperáveis. Vou me ater a dois casos ocorridos em épocas diferentes e com pessoas renomadas nacionalmente e que foram vítimas do infortúnio das doenças transmissíveis. Não que os dois não se cuidaram, tentando fugir da fatalidade, investindo todo capital financeiro nessa tarefa, mas sem o retorno esperado, como resultado vieram a óbito.


O primeiro caso foi do poeta brasileiro, romântico e respeitado na literatura nacional, autor de versos memoráveis, talvez pressentindo a sua desdita se jogasse de corpo e alma nas suas declarações de amor à própria vida. Casimiro de Abreu morreu prematuramente aos 21anos, deixando um rastro de amor e ternura, mesmo tendo uma morte lenta e incurável, foi atingido pela tuberculose e falecendo em 1860.


Essa doença continua matando até hoje, mas controlando com todos os cuidados recomendados muitas vidas são salvas. Apenas para mostrar quanto o poeta Casimiro de Abreu era grato a sua vida vou reproduzir abaixo o seu poema mais expressivo para com sua própria vida:


Meus Oito Anos


Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonho, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais!


Como são belos os dias Do despontar da existência! — Respira a alma inocência Como perfumes a flor; O mar é — lago sereno, O céu — um manto azulado, O mundo — um sonho dourado, A vida — um hino d'amor!


Que aurora, que sol, que vida, Que noites de melodia Naquela doce alegria, Naquele ingênuo folgar! O céu bordado d'estrelas, A terra de aromas cheia As ondas beijando a areia E a lua beijando o mar!


Oh! dias da minha infância! Oh! meu céu de primavera! Que doce à vida não era Nessa risonha manhã!

Em vez das mágoas de agora, Eu tinha nessas delícias De minha mãe as carícias E beijos de minha irmã!


Livre filho das montanhas, Eu ia bem satisfeito, Da camisa aberta o peito, — Pés descalços, braços nus — Correndo pelas campinas A roda das cachoeiras, Atrás das asas ligeiras Das borboletas azuis!


Naqueles tempos ditosos Ia colher as pitangas, Trepava a tirar as mangas, Brincava à beira do mar; Rezava às Ave-Marias, Achava o céu sempre lindo. Adormecia sorrindo E despertava a cantar!


Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonho, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais!


Outro caso que nesse momento nos chama bastante atenção é de outro poeta, Augusto dos Anjos, que viveu apenas 30 anos, em 1914, debilitado fisicamente, acometido por uma pneumonia, também problema pulmonar e de alta complexidade. Depois de 107 anos sua poesia continua imorredoura no coração de todos nós, é tido como o poeta do impossível, pois ele tratou a vida com muito desprezo.


Em suas palavras a vida parecia cruel demais, de alguma forma ele registrou em seu único livro, porém de alcance internacional, toda sua amargura e tristeza pela sua impotência ante a vida. Vou resumir toda sua ira contra a vida em uma poesia que reputo como uma das mais profundas e autênticas na literatura mundial, rejeitando o fatalismo do poeta e com todo respeito:


Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão – esta pantera – Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!

Fiz questão de juntar dois tempos diferentes, de poetas distintos, sem julgar a profundidade dos seus versos, com visão antagônica sobre a vida. Tenho certeza que muito de nós se identifica com esses dois pensamentos estanques, principalmente em momento de pandemia e fatalidades, quando a morte boceja em nosso leito como a nos convidar para uma viagem sem retorno. É nessa hora que temos que ser fortes e superar todas as fraquezas que possam vir a nos abater.

Mais uma vez, esqueçamos os que além de não ajudarem procuram ainda atrapalhar quem quer agir, com atos, gestos e palavras, em um verdadeiro negacionismo, esses deixem de lado, nos juntemos, pois, aos que querem ter na vida a sua fé e esperança.


Genival Dantas

Poeta, Escritor e Jornalista








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